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Guia Médico

Trombose da artéria ulnar por digitação: relato de caso

CARLOS HENRIQUE FERNANDES1, MÁRCIO DA SILVA TINÓS2, LIA MIYAMOTO MEIRELLES3

RESUMO
Os autores relatam um caso de trombose crônica da artéria ulnar causada por traumas repetidos na região hipotenar em decorrência de técnica incorreta de digitação. Enfatizam a importância do correto diagnóstico revisando a literatura e discutindo o diagnóstico e tratamento realizado.

INTRODUÇÃO
A trombose da artéria ulnar é também conhecida como isquemia digital pós-traumática ou doença por instrumento pneumático. Conn(3), em 1970, chamou de síndrome do martelo hipotenar, em decorrência de seu mecanismo etiológico principal que se caracteriza por traumas repetidos na região hipotenar da mão. É uma lesão vascular rara(15) que se caracteriza por oclusão da artéria ulnar distal. Desde o trabalho de Von Rosen(22), em 1934, até esta década, mais de 150 casos
tinham sido publicados na literatura da língua inglesa. Apresenta sintomatologia variável, desde sinais e sintomas discretos até casos extremos com necrose de dedos.

Descrevemos o caso de uma paciente do sexo feminino com traumas repetitivos na região hipotenar durante a digitação, que desenvolveu trombose da artéria ulnar ao nível do punho.


RELATO DO CASO
Paciente do sexo feminino, 33 anos, secretária, não fumante, sem patologias associadas. Compareceu para consulta com história de dores no membro superior esquerdo há seis meses, sem antecedentes de trauma de grande importância, com diagnóstico de lesão por esforço de repetição (LER).
Durante anamnese, a paciente referia parestesia na borda ulnar do antebraço, 4º e 5º dedos da mão esquerda e dor à compressão da região hipotenar. Não referia queixas de intolerância ao frio e não apresentava sinais de cianose. O teste de Allen(11) apresentava-se positivo para obstrução da artéria ulnar. Realizado doppler duplex, que mostrou obstrução da artéria ulnar. A arteriografia (fig. 1) confirmou a interrupção do fluxo da artéria ulnar desde o 1/3 distal do antebraço até a região palmar. Foi optado pela exploração cirúrgica, que evidenciou artéria ulnar trombosada (fig. 2). Realizou-se a ligadura e ressecção de aproximadamente 10cm da artéria ulnar e abertura do canal de Guyon com liberação do nervo ulnar.
O segmento arterial ressecado foi encaminhado para estudo anatomopatológico, que confirmou o diagnóstico clínico e de imagem.
A paciente retornou ao trabalho um mês após a cirurgia e encontra-se assintomática até o momento.

DISCUSSÃO
Devido à sua posição superficial ao nível do punho, a artéria ulnar fica vulnerável aos traumas. Portanto, a causa mais comum de trombose é o trauma na região hipotenar. Existe associação com fratura do hamato, arterites(15), uso de bengalas(18), músculos anômalos(2,5,8,11) e até espontâneo(12,16). Nossa paciente, quando digitava no computador, usava a região hipotenar para acionar a tecla “espaço” por repetidas vezes.
Devido ao mecanismo de trauma, existe um predomínio, na literatura, de pacientes do sexo masculino, ao contrário de nossa paciente, que era do sexo feminino.
Aproximadamente 50% dos casos de trombose ulnar não são diagnosticados inicialmente, como em nossa paciente(9,12).
O quadro clínico varia muito de intensidade e forma, podendo apresentar intolerância ao frio, cianose, dor, fenômeno de Raynaud, isquemia dos dedos da mão, sintomas de neuropatia ulnar ou massa em região hipotenar. O teste de Allen(11) deve ser usado para confirmação clínica do diagnóstico. Entre os exames subsidiários existem a termografia e a pletismografia, que porém não confirmam o diagnóstico. A ecografia é um exame não invasivo que permite observar a obstrução arterial. O exame de eleição para confirmar o diagnóstico é a arteriografia(3,4,6,7,13,17,20), que mostra a anatomia vascular do membro superior.

O diagnóstico diferencial deve ser feito com doença de Raynaud, doença de Buerger (tromboangeíte obliterante), esclerodermia, arterite de células gigantes, síndrome do desfiladeiro torácico, neuropatia ulnar e até mesmo fenômenos tromboembólicos.

O tratamento da trombose da artéria ulnar proposto pela literatura é variado. No tratamento clínico são utilizados ácido acetilsalicílico, trombolíticos e vasodilatadores. O paciente é orientado no sentido de evitar o fator traumático etiológico e, se for o caso, abandonar o tabagismo(19), na maioria das vezes ineficaz. Também podem ser utilizados o bloqueio dos nervos simpáticos, a simpatectomia e, nos casos agudos, a embolectomia com cateter(15).
O tratamento cirúrgico pode ser realizado com ressecção e enxerto de veia utilizando técnica microcirúrgica(12). Porém, a revascularização apresenta possibilidades de complicações e recorrência da sintomatologia por nova trombose(
12,14,21) e formação de pseudo-aneurisma(5). Leriche et al.(10) afirmam que a presença de fibras nervosas simpáticas provoca vasoespasmo distal. Assim a ligadura da artéria e ressecção do segmento trombosado são tecnicamente simples e eficazes para alívio dos sintomas. Como desvantagem, temos a não restauração do fluxo arterial, mas em compensação é isenta de complicações posteriores. Nossa paciente, submetida a esta técnica, retornou ao trabalho, estando assintomática até o momento.

CONCLUSÃO
A trombose da artéria ulnar pode ocorrer por técnica errada de digitação e o tratamento com ressecção e ligadura proporciona bom resultado.

Notas

1. Professor Adjunto da UMC; Pós-graduando da Unifesp.
2. Ortopedista e membro titular da SBOT.
3. Fisioterapeuta Especialista em Terapia da Mão pela USP.
Endereço para correspondência: Carlos Henrique Fernandes, Rua Ronald de Carvalho, 400/53 – Jd. São Paulo – 02043-000, tel. (011) 290-5200, e Rua Leôncio de Magalhães, 382 – Jd. São Paulo – 02042-000 – São Paulo, SP, tel. 299-0975.

REFERÊNCIAS
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2. Carneiro, R.S. & Mann, R.J.: Occlusion of the ulnar artery associated with an anomalous muscle: a case report. J Hand Surg 4: 412, 1979.
3. Conn, L., Bergen, J.J. & Bell, J.L.: Hypothenar hammer syndrome: posttraumatic
digital ischemia. Surgery 68: 1122-1128, 1970.
4. Given, K.S., Puckett, C.L. & Kleinnert, H.E.: Ulnar artery thrombosis. Plast Reconstr Surg 61: 405-411, 1978.
5. Higgs, P.H. & Weeks, P.M.: Traumatic pseudoaneurysm in an ulnar artery vein graft. Plast Reconstr Surg 91: 726-728, 1993.
6. Kleinert, H.E. & Voliantis, G.J.: Thrombosis of the palmar arterial arch and its tributaries: etiology and newer concepts in treatment. J Trauma 5: 447-455, 1965.
7. Kleinert, H.E., Burget, G., Morgan, J. et al: Aneurysms of the hand. Arch Surg 106: 554-557, 1973.
8. Koga, Y., Seki, T. & Caro, L.D.: Hypothenar hammer syndrome in a young female badminton player: a case report. Am J Sports Med 21: 890-892, 1993.
9. Koman, L.A. & Urbaniak, J.R.: Ulnar artery insufficiency: a guide to treatment. J Hand Surg [Am] 6: 16-24, 1981.
10. Leriche, R., Fontaine, R. & Dupertuis, S.M.: Arterectomy with followup studies on 78 operations. Surg Gynecol Obstet 64: 149-155, 1937.
11. Levinsohn, D.G., Gordon, L. & Sessler, D.I.: The Allen’s test: analysis of four methods. J Hand Surg [Am] 16: 279-282, 1991.

12. Mehlhoff, T.L. & Wood, M.B.: Ulnar artery thrombosis and the role of interposition vein grafting: patency with microsurgical technique. J Hand Surg [Am] 16: 274-278, 1991.
13. Mertens, R.M., Kramer, A.S. & Valdés, F.E.: Sindrome del martillo hipotenar. Rev Med Chile 123: 345-349, 1995.
14. Millender, L.H., Nalebuffe, E.A. & Kasdan, E.: Aneurysms and thromboses of the ulnar artery in the hand. Arch Surg 105: 686-690, 1972.
15. Newmeyer, W.L.: “Vascular disorders”, in Green operative hand surgery, Churchill Livingstone, 1993. p. 2262-2264.
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22. Von Roses, S.: Ein fall von Thrombose in der arteria ulnaris nach Einwirkung
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